Oportunidades perdidas
Márcia Barreto
José Nunes Barreto, apaixonado pelo Vitória Esporte Clube, é um aposentado de 67 anos, casado, pai de dois filhos, que não aparenta a idade que tem pela tamanha disposição para o trabalho. Acorda todos os dias às 04 da manhã, para as 04:45 pegar o ônibus em Amaralina rumo à feira livre de São Joaquim. Por volta das 05:15, já começa atender seus clientes que chegam logo na primeira hora.
Já fez várias coisas na vida. Nas décadas de 1960 e 1970, em pleno Regime Militar, foi fiscal de ônibus, mascate, estudante de engenharia, mas nada o satisfazia e nenhumas das oportunidades foram aproveitadas até o final. Restando a experiência e o arrependimento de não ter aproveitado todas as chances que a vida lhe ofereceu.
Depois disso, foi trabalhar na feira como vendedor de farinha, verduras, banana e maracujá. A comercialização dessas mercadorias não rendia muito dinheiro, mas ele sentia-se satisfeito em comerciar naquele local. No ano de 1974 conheceu sua mulher, e um ano depois veio à primeira filha, que não estava programada, iniciando uma nova fase na vida do casal. Ainda como feirante, dedicou-se muito para garantir o leite da criança.
Mesmo com a filha pequena, o casal tinha vida social ativa. Participavam de comemorações em casa de parentes e amigos, iam as praias, aos parques, festas de largo, viagens e carnaval. Sempre com a pequena. Quando ela adormecia, preparavam uma caminha e a deitavam, mas, não deixavam com ninguém. Era grande parceira dos pais.
Em 1978, nasceram mais dois filhos, eram gêmeos e portadores de doenças cardíacas. Eles morreram aos três meses. Abalado com as perdas, se entregava aos afazeres, mas as coisas não estavam boas: movimento fraco e clientes desaparecidos. Assim, naquele ambiente de abandono ele preocupou-se como seria para garantir o sustento da família.
O momento era de dor, seu esforço era dobrado e necessário. A esposa e a filha de dois anos necessitavam, e muito, dele. A criança não entendia direito tudo o que acontecia, mas sentia o clima de tristeza no ambiente familiar. Seu sonho, de tirar o sustento familiar, da venda de gêneros alimentícios, se distanciava a cada dia. Com tudo isso nunca deixou faltar nada para seus entes queridos.
Na década de 1980, final do regime militar, chega o quarto filho. Desta vez, não houve alternativa: vendeu a barraca, contra sua vontade, aceitou o convite de um amigo e foi trabalhar em uma rede de supermercados na capital baiana. Já trabalhando, não esquecia da época de feirante e dizia que não tinha nascido para trabalhar para ninguém. Não se acostumava com a figura de um patrão.
Durante esse tempo, fez umas economias e foi aumentando a casa que, no início, tinha apenas cozinha, um quarto e banheiro. Foi muito sacrifício! Muitas vezes, após um dia inteiro de trabalho, ao chegar à noite em casa ia assentar piso, levantar e rebocar paredes, sempre com a ajuda da esposa. Caminhavam lado a lado.
Parceiro incondicional da esposa dividia as tarefas domésticas com ela. Desde quando os filhos eram bebê, cuidou com esmero, lavava fraldas, dava papinha, levava ao médico, à praia, ao zoológico e outros lugares. No dia 29 de março de 1985, vem ao mundo o seu último filho. Junto com a companheira optou pela ligadura de trompas para encerrar a quota de herdeiros.
Tudo parecia correr normalmente até que o pediatra diagnosticou problema no coração do menino. Daí em diante, houve uma luta pela sobrevivência. Inúmeros profissionais foram consultados e o diagnóstico era unânime: se ele sobrevivesse até a idade de um ano e meio, faria uma cirurgia e a expectativa de vida seria maior. Foram inúmeras internações, consultas, tratamentos espirituais, orações em igrejas, entre amigos e familiares.
Até que, na noite de Natal de 1985, à maia – noite, ele deu seu último suspiro e foi para o lado de Deus. Os pais ficaram abalados. E a irmã mais velha, que na ocasião tinha dez anos, não aceitava o que estava acontecendo. No hospital, enquanto aguardavam o médico liberar aquele pequenino corpo, para o enterro, a cena era comovente: genitores sentados lado a lado, em um banco de madeira, procurando acalmar a filha que chorava muito no colo deles pedindo o irmãozinho de volta.
Após o momento fúnebre, a vida, aos poucos, foi retornando ao normal para aquela família. O tempo passou. José conseguiu transformar o quartinho em uma residência de três quartos. “Não é nenhuma mansão, mas é onde passo o sol e a chuva”, fala, ao olhar para o domicílio de hoje, enquanto as lembranças daqueles momentos lhes vêm à cabeça. A casa não está totalmente pronta: faltam várias coisas, como rebocar algumas partes, fazer mudanças nos quarto, mas isso só com tempo e calma.
Na década de 1990 houve um corte de funcionários e Nunes perdeu o emprego. Ele aproveitou a saída, seus filhos mais ou menos criados, e retornou para feira de São Joaquim, onde está até hoje e de onde sabe se quer sair. “Gostaria de não precisar chegar tão cedo. Porque a violência tá demais, mas, se não tem outro jeito, eu vou”.
Muito calado, mas quando conversa sobre a história de vida, é nítido o arrependimento de não ter aproveitado mais as oportunidades. “Eu vacilei muito! Fui convidado para trabalhar na Petrobras e não quis, era acionista do Hospital Salvador e abandonei, e hoje vejo quantas oportunidades a vida me deu e eu desprezei” desabafa o aposentado. Por isso fala sempre para os filhos aproveitarem as chances e não seguirem o caminho das incertezas, dos sonhos soltos no espaço que percorreu. “Peguem o que estiver ao alcance e façam diferente do que fiz, por que quando o arrependimento vem já é tarde” aconselha José.